A convivência com o abuso

sábado, março 05, 2016






Esse é o primeiro texto que escrevo que tem 0% de ficção, totalmente baseado em acontecimentos reais, vividos por mim. A princípio, achei que não deveria abordar um assunto tão delicado aqui, mas decidi compartilhar, afinal esse é o meu pequeno grande espaço, onde me sinto à vontade para falar o que sinto.

Nos últimos tempos tenho parado para ler artigos de opinião e participado de grupos onde se discute as agressões, abusos e grosserias vividas diariamente por nós mulheres. Tenho me aprofundado no assunto aos poucos, aprendido cada dia mais sobre como o feminismo pode nos ajudar a combater essas situações. 

Lendo alguns relatos, vi que a maioria das mulheres sofrem abusos (verbais e físicos) desde muito jovens, algumas até quando eram crianças e parei para pensar quando foi meu primeiro abuso. Afinal, é quase impossível encontrar uma mulher que NUNCA tenha sofrido algo do gênero durante sua vida. Desde que comecei a ir para o colégio sozinha, quando tinha por volta de 13 ou 14 anos, era obrigada a passar em frente à bares, postos de gasolina ou obras de novos prédios e, com toda minha inexperiência, fui obrigada a ouvir "cantadas" (com todas as aspas que couberem nessa situação) dos piores tipos: "gostosa", "delícia", etc. Na época, me assustava e me sentia envergonhada, tanto que não contava para meus pais sobre nada disso, porque na minha cabeça eu era a culpada de ter passado na frente de um grupo de homens. 

Após alguns anos, acabei me acostumando com esse tipo de situação. Sim, cheguei a ponto de considerar normal ser chamada de gostosa por homens desconhecidos e evasivos, inclusive na maioria das vezes muito mais velhos que eu. Até mesmo quando estava na companhia da minha mãe (ou seja, sem a clássica acusação de "estar andando sozinha na rua"), passava por situações parecidas. 

Conforme cresci, aprendi a conviver com isso, para evitar ouvir buzinas e "psiu", andava com fones de ouvido com volume alto e andava rápido quando passava perto de lugares que julgava ser perigoso. Adaptei minha vida àquilo que aprendi a considerar normal, afinal eu era uma menina no início da adolescência e estava à disposição disso sempre que saísse na rua. 

Algumas dessas situações ficaram bem fortes na minha memória. Como no dia que estava no metrô acompanhada da minha mãe, um homem cede o lugar à ela e, logo em seguida, o homem gentil diz: "ela é sua mãe?" e, diante da resposta positiva ele fala para uma adolescente de 15 anos com toda naturalidade do mundo "Você não quer dar uns netinhos para ela?", acompanhado da malícia que um homem de 30 anos possuí. Outro exemplo foi durante o trajeto para o meu primeiro emprego, no dia estava sem mochila e em pé no corredor do vagão quando um homem de terno e gravata esfrega seu pênis em mim repetidas vezes e eu com medo, nojo e vergonha, olho para o lado procurando ajuda, sendo completamente ignorada. 

Essas foram apenas algumas das inúmeras situações constrangedoras que fui obrigada a viver só por ser mulher ou só por estar desacompanhada de um homem. E, ainda hoje, passo por momentos semelhantes, que faz me sentir impotente e vulnerável. Não quero ter que me sentir culpada por estar voltando da faculdade desacompanhada e ouvir palavras esdrúxulas só por ser uma mulher "disponível". 

O que faz algumas pessoas pensarem que é agradável ouvir um "que delícia, hein?" de um cara completamente desconhecido no caminho para casa? O que faz alguém cogitar a hipótese que isso seria um elogio? Qual o sentido de pedir respeito para sua mãe, irmãs e primas, se quando saí na rua desrespeita a primeira mulher que passa na frente? 

A culpa de sofrer esse tipo de abuso é minha, por ser mulher, por achar que posso andar na rua como uma pessoa normal, cumprindo meus compromissos e usando transporte público. Afinal, quem manda sair para a rua?

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