Carta número um

quinta-feira, dezembro 03, 2015


Não me lembro há quanto tempo, talvez um ano ou menos, mas encontrei nas garrafas de destilados a distração que precisava. Hoje resolvi te contar como estou e como vou levando a vida, embora talvez você nunca saiba realmente. 

Todos os dias, ou pelo menos naqueles que consigo me levantar da cama e colocar uma roupa limpa, vou a pé até o bar mais próximo, o bar do João. Ele me conhece desde que me mudei pra caixa de sapato-apartamento onde moro, também me ajudou a levar caixas três lances de escada acima, para descansar e refrescar do calor de quase 40º que fazia, tomamos um engradado de cerveja em silêncio e pensando. Desde então, conversamos enquanto bebo no balcão. 

Também tem uma praça, bem suja com playground quebrado e enferrujado onde as crianças deixaram de brincar há muito tempo. Só existe um banco inteiro e é nele que me sento com meu maço de cigarros. Vez ou outra algum andarilho ou morador de rua senta-se ao meu lado, me faz companhia silenciosa ou conversa sozinho. 

O engraçado é que em todos estes lugares eu imagino o que você falaria, quando me esforço bastante consigo até ouvir sua voz, na maior parte das vezes gritando comigo por estar com bafo de bebida ou fedendo a cigarro, que você sempre odiou. 

Queria te contar uma novidade em primeira mão: aprendi a fazer café. Agora não preciso ir tomar café no bar, faço em casa o café forte e sem açúcar como gosto. Mas minha alimentação continua a mesma, a geladeira com garrafas de vinho e vodca pela metade, de vez em quando algum leite aberto há muitos dias e no armário pó de café. 

Amanhã vou tentar sair de casa de novo. Dois dias seguidos vendo a luz do sol será um recorde para mim. 

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