Despercebidos

terça-feira, outubro 06, 2015



Nove e meia da manhã, em plena quinta-feira, ônibus razoavelmente vazio e um sol tímido querendo aparecer pra amenizar o frio que já perdurava há uma semana. O aleatório das músicas tocava desde que sai de casa e, em determinado momento parei de prestar atenção em quem estava cantando e me concentrei nos compromissos de trabalho que eu teria que fazer até sexta-feira, contas que venceriam daqui a poucos dias e outras dezenas de preocupações que deixam todos meio aéreos ao mundo em volta.

Nem sequer percebia quem entrava ou saia do ônibus.

Alguns pontos antes do qual eu desceria, um casal entrou e me chamou atenção. Os dois estavam com roupas simples: calça jeans, camiseta, blusas de frio finas demais e surradas pelo tempo, sapatos um pouco gastos e olhos que carregavam cansaço de noites mal dormidas. Como geralmente acontece, ninguém mais reparou ou olhou para os dois, que se sentaram no único lugar vago em que cabia um ao lado do outro e que coincidentemente era na minha frente.

Pouco falavam. Ela deitava a cabeça nos ombros dele e cochichava algo em seu ouvido, com um tom de “vai dar tudo certo”, enquanto fazia carinho nos cabelos. Ele estava cabisbaixo, mal olhava pra janela. Enquanto o restante das pessoas, no mesmo ônibus,  ocupadas em seus celulares, respondendo mensagens, olhando redes sociais ou procurando o que fazer na internet, eles apenas olhavam um para o outro. Invisíveis.

Ela levantou-se no mesmo momento que eu, desceríamos no mesmo ponto. Mas antes de ir até a porta, olhou mais uma vez para ele, como quem não queria deixa-lo sozinho. Ele correspondia o olhar, mas de uma maneira mais tímida, como se estivesse com medo.

O ônibus parou e eu segui meu caminho para o trabalho, quando olhei para trás a vi parada olhando para a janela onde ele estava. Permaneceram assim até o farol abrir e o motorista seguir a viagem. Ela olhou pro chão e ficou parada, com sua bolsa grudada ao corpo, cabelos despenteados pelo vento e sem o ombro dele pra apoiar a cabeça. Invisível à pressa de quem passava atrasado. E todos estavam sempre atrasados. 

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