A ausência

segunda-feira, maio 25, 2015


Quando somos crianças achamos que tudo dura pra sempre, isso inclui desde amigos de escola até o desenho favorito que passava todas as tardes. Acreditamos que nossos pais serão sempre iguais e nunca ficarão com cabelos brancos e rugas como os nossos avos, planejamos nossas vidas de adulto perfeitas como as personagens de filmes que assistimos.

Na verdade, quando somos crianças a palavra fim não faz parte do nosso vocabulário, muito menos a morte. Nunca imaginamos que as pessoas que amamos um dia morrerão como as outras, imaginamos que nossa família será eterna, do jeito que conhecemos.

Tentam nos dizer aquela fábula de que as pessoas viram estrelas e continuam olhando por nós lá do céu. No fundo ainda acredito nisso, não literalmente, claro, mas de uma maneira mais simbólica. Desde pequena dizia que não entraria em um cemitério, porque ninguém que amo iria parar lá, mas quando cresci vi que não somos nada na Terra.

Conforme os anos passam, nossas 24h por dia parecem que duram menos, o tempo que sobra dividimos entre dormir e comer. Parar pra conversar com a nossa família é quase raro, encontrar tios e avós é um privilégio para poucos e, quando se consegue, não passa de um final de semana. Foi nessa correria de estudar e trabalhar que fui deixando de ir à casa dos meus avós, sempre surgiam tarefas de faculdade pra serem entregues ou até mesmo eventos de trabalho pra cumprir. Ainda pude viver por 20 anos indo para o interior comer as sobremesas que minha avó fazia (e faz até hoje, interrompendo minha dieta da semana) e sentar na sala pra conversar e assistir televisão aos domingos com meu avô.

É estranho pensar em alguém com saudade e não poder visitá-lo como era feito durante anos. Ver a poltrona vazia e saber que ele não chegará pra almoçar e conversar sobre política e sobre a vida com meu pai, ou brincar e tirar sarro das crianças pequenas, da mesma forma que costumava fazer comigo.

Achava que situações como essa só aconteciam nos filmes, que jamais presenciaria minha mãe e minha avó chorando e eu com aquela mistura de tristeza, medo e impotência por não poder fazer nada por elas.

Situações e conversas vividas aos finais de semana se transformaram em lembranças de um dia para o outro. O quarto ficou vazio, a poltrona solitária e o silêncio na sala. Mas sei que no céu tem uma estrela que olha por mim.

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