Pulso

domingo, fevereiro 08, 2015



Precisava de um tempo, não suportava mais ficar em casa e resolvi sair pra caminhar. Com o barulho dos carros, motos e pessoas conversando alto, não havia como ouvir meus pensamentos. Sai sem lugar específico para ir, peguei o primeiro ônibus que passou no ponto e fui até o final. Acabei chegando até o centro da cidade.

As pessoas passavam apressadas para tentar pegar o ônibus mais vazio e chegar um pouco mais cedo em casa, os moradores de rua começavam a arrumar suas camas improvisadas com papelão e uma colcha fina. As lojas estavam se fechando e, aos poucos, só sobravam os botecos e lanchonetes abertas com os fregueses bebendo cerveja e conversando na calçada. Observava tudo de longe, tentando imaginar o que cada pessoa estava pensando, o que cada um carregava em seu olhar cansado.

Fui até o parque próximo à estação de metrô, onde geralmente têm vendedores de artesanatos e produtos naturais. Como já passava das 18h, havia apenas uma ou duas barracas de comida típica e um músico tocando violão e tentando vender seus CD’s independentes. Sentei em um banco próximo para ouvi-lo tocar enquanto pensava.

Alguns minutos depois, ele se recolheu e seguiu seu caminho. Eu, sentada ali sozinha, também resolvi seguir o meu. Fui de volta ao ponto de ônibus para voltar e, durante a caminhada vi caído no chão um livro. Olhei ao redor e procurei um possível dono, mas a rua já estava praticamente deserta, então peguei e o levei comigo até em casa.

Assim que acendi as luzes fui procurar o nome de quem perdeu o livro ou algo que o identificasse. Na capa apenas uma palavra: Pulso. Não havia nem ao menos o nome do autor, ou editora na qual o livro poderia ter sido publicado. Era fino, não mais do que cinquenta páginas amareladas pelo tempo, mas completamente legível. Na primeira folha uma dedicatória curta e datada de 1983, assinada por Fernando, sem sobrenome.

Como minha curiosidade já havia sido despertada, me sentei no sofá e comecei a ler o epílogo, que explicava em poucas palavras do que se tratava o livro. Um grupo de estudantes que decidiu reunir suas poesias e pensamentos para a posterioridade.

Cada poesia e conto era datado e assinado por diferentes nomes. Era possível sentir a emoção descrita em cada verso e parágrafo. Alguns foi como ler minha própria história, outros foi como ouvir um desabafo de amigo. Sentia como se conhecesse cada uma das pessoas que escreveram ali seus sentimentos, sonhos e melancolias.

Em menos de uma hora terminei de ler. Fiquei instigada a procurar cada um dos nomes que estavam escritos ali e saber como estavam hoje em dia, se continuavam escrevendo, o que sentiriam ao ver seu livro nas minhas mãos, uma garota que nasceu 11 anos depois da sua publicação e que por algum motivo ainda desconhecido, acabou o encontrando no meio do caminho, trazendo-o para junto das outras dezenas de histórias que possuo.

Imagino que nada acontece sem nenhuma razão. Tudo, absolutamente tudo, têm um sentido. Talvez eu devesse encontrar e ler este livro, descobrir o que estes estudantes sentiram ao escrever seus poemas e despertar em mim cada um destes sentimentos. Redescobrir minha sensibilidade e criatividade.

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