Nunca te chamei de amor - Parte dois

domingo, dezembro 14, 2014

O despertador me chama para mais uma semana, mais cinco dias inerte na rotina insossa e estressante. Toda segunda-feira  penso seriamente em não levantar da cama, ficar deitada até cansar e me levantar somente pra comer ou usar o banheiro, mas as obrigações me fazem despertar, tenho uma pilha de contas em cima da mesa e elas não vão desaparecer  se eu ficar dormindo até não aguentar mais. 

Minha geladeira está praticamente vazia, só encontro uma garrafa de água, algumas frutas que estão irreconhecíveis e uma bandeja de iogurte que comprei sexta-feira, antes de sair pro bar. Vou tentar melhorar minha cara de sono com um pouco de maquiagem e, quando me vejo refletida no espelho, tenho raiva do que enxergo, não estou nem um pouco satisfeita com meu cabelo, muito menos com minhas olheiras que teimam em aparecer mesmo com uma quantidade razoável de pó compacto. 
Desisto de tentar melhorar minha aparência cansada, pego minha mochila velha e quase rasgada, coloco os fones de ouvido e fecho a porta. Sempre faço o mesmo caminho para o trabalho, conheço cada buraco da calçada, sei o tempo que o farol demora para abrir e cumprimento o dono da banca de revistas e a moça que sai com seu cachorro gorducho no mesmo horário todos os dias. 
Quando chego na redação, poucos estão em suas mesas, a maioria fica tomando café na padaria da esquina até quase a hora do almoço. Sento na minha mesa com as pilhas de papéis que fiquei de arrumar semana passada, olho com desgosto minha caixa de e-mails, mais de 30 do meu editor, a maioria com URGENTE no assunto. Fecho os olhos, respiro fundo e repito inúmeras vezes no meu pensamento: "essa é só uma etapa da sua carreira". Quando começo a responder as mensagens, uma por uma, com a paciência que não sei de onde vem, o telefone começa a tocar incansavelmente, todos começam a me pedir favores ao mesmo tempo, preciso revisar textos alheios e, quando me dou conta, já passam das duas horas da tarde. 
Vou até o bistrô onde almoço todos os dias e converso um pouco com a garçonete até que meu prato fique pronto. De tanto desabafar com ela, a considero quase minha psicóloga. Almoço sozinha, ouvindo música e observando as pessoas indo e vindo na calçada, desenvolvi essa mania de observar as pessoas, tentar adivinhar quais suas histórias de vida. No meio dos meus pensamentos surge a figura de Felipe, seu jeito tímido e desengonçado, sua risada contida dos meus tropeços durante a volta pra casa. Me lembrei que sei pouco sobre ele, não consigo recordar do seu endereço ou se ao menos me disse onde morava. Sinto vontade de conversar sobre a vida com ele por horas a fio.
Volto para minha pequena mesa desorganizada, agora com ainda mais folhas de papel e pastas jogadas em cima do teclado. Contenho minha raiva, olho para o relógio e calculo: Faltam menos de 3 horas para ir embora. 

Você também pode gostar de:

2 comentários

  1. Adorei a proposta do seu blog *-* O que mais gosto de ler na internet são estórias e seus contos são muito bons, parabéns! :D

    Love, Nina.
    http://ninaeuma.blogspot.com/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigada *-* Fico tão feliz quando alguém gosta do que faço haha.
      Seu blog é uma fofura. Adoro ler resenhas *-*

      Excluir

Subscribe