O mesmo café

sábado, setembro 13, 2014

Eu o observava fazia muito tempo. Todos os dias, sempre no mesmo horário coincidentemente (ou não) íamos na mesma cafeteria tomar a primeira dose de cafeina do dia antes de entrar no trabalho. Sempre na minha frente, ele pedia um café preto, médio, para viagem, eu pedia um café com leite e canela, pequeno, para viagem. Sempre de cabeça baixa e, de vez em quando, esbarrando nas pessoas que iam contra o fluxo da calçada, ele entrava no prédio mais alto da rua, com janelas espelhadas refletindo as nuvens do céu enquanto o sol ainda surgia. Eu entrava no prédio simples e com aspecto antigo no final da rua, cumprimentava a recepcionista que sempre me oferecia um doce que eu cordialmente recusava com um sorriso.

Entre um momento de tédio e outro, enquanto todos falavam - praticamente gritando- ao mesmo tempo, eu ficava pensando qual era a profissão dele e o porquê de ser tão fechado e cabisbaixo. Não era como eu, que gostava de ficar atenta a tudo, olhar sempre o mais longe possível e sorrir para cumprimentar ou agradecer alguém. Ele era ríspido, não falava mais que o necessário com o barista e, quase nunca dizia bom dia sorrindo. Aliás, nunca o vi sorrindo nesses anos que nossas rotinas se cruzam. Sempre imaginei que seu sorriso era discreto, daqueles charmosos, instigando a curiosidade alheia.

Quando chegava a hora do almoço eu sempre ia sozinha ao restaurante que ficava ao lado do prédio dele. Não tinha a ver com o fato de ter mais chances de vê-lo pela segunda vez no dia, claro que não. Era pelo fato de que a comida era comestível e barato o suficiente para sobrar dinheiro para o pudim de leite condensado na sobremesa. Havia dias que eu o via conversando sério com outros homens na última mesa, ás vezes encontrava com ele saindo, enquanto eu entrava. Mesmo quando passávamos um na frente do outro, não trocávamos olhares, me sentia meio frustrada quando eu estava me sentindo bonita e ele passava direto, de cabeça baixa. Não esperava que ele fosse se apaixonar por mim instantaneamente, mas se me visse na minha melhor aparência, talvez aumentassem as chances. Ou não.

Eu nunca fui pretensiosa pensando que, em uma bela manhã de verão, ele resolvesse que eu era a pessoa da vida dele, me puxasse pelo braço e desse um beijo. Uma cena de cinema, linda e emocionante. Mas não cabe na vida real. A realidade não tem todo esse romance de filme, não tem toda a poesia das músicas e não tem toda a magia dos livros.

Na vida real, eu volto para casa, dou atenção pro meu cachorro enquanto faço um lanche rápido antes de deitar na cama e esperar o sono chegar e no dia seguinte recomeçar tudo, encontrando ele no mesmo horário, pedindo o mesmo café e torcer para que ele resolva me olhar nos olhos. 

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