O estranho no caminho.

terça-feira, setembro 09, 2014

O dia estava insuportavelmente chato, monótono e sem graça. Eu havia perdido o horário porque, pela terceira vez na semana, o despertador resolveu não tocar, acordei atrasada e fui me arrumar sem a menor pressa, de qualquer forma chegaria tarde no trabalho. 

Peguei a roupa mais básica que tinha disponível no guarda roupas, com preguiça, não passei nada de maquiagem, passei os dedos nos cabelos pra tentar deixá-lo um pouco menos bagunçado, peguei um iogurte na geladeira e sai com o fone de ouvido no volume máximo, cantarolando de vez em quando. 
Passei o dia na frente de um computador velho e lerdo, fazendo as mesmas coisas de sempre e contando os segundos para o expediente terminar. Estava extremamente cansada, mesmo tendo dormido algumas horas a mais, meu corpo parecia que ia despencar a qualquer momento sem energia alguma. 

Como de costume, fiquei no ponto durante 30 minutos esperando um ônibus com lotação razoável e que me coubesse dentro. Quando finalmente consegui, um homem alto tromba em mim disputando quem entraria primeiro, com toda a delicadeza ele me cedeu o lugar e entrou logo atrás de mim. Ele era charmoso, vestido como um executivo prestes a entrar em uma reunião importante, com barba por fazer , cabelo meio despenteado e um olhar penetrante. Ele também estava ouvindo música, e de vez em quando pegava o celular e dava um sorriso, talvez lendo a mensagem de alguém, eu torcia para que estivesse errada. 

Me distraí pensando nos compromissos que teria durante a semana e não percebi que o ônibus ficou tão cheio que mal tinha espaço para colocar os pés. Foram me empurrando e acabei ficando frente a frente com ele, sem querer. Confesso que gostei de poder olhá-lo de mais perto, ver que a cor dos olhos dele eram verdes e que tinha sardas nas bochechas que eram cobertas pela barba. 
Não trocamos olhares, creio que ele mal percebeu que eu o encarei por tanto tempo, ou percebeu e fingiu que não. Faltava apenas um ponto para eu descer, pedi licença para conseguir chegar até a porta, posso até dizer que senti o olhar dele sobre mim conforme me afastava, mas talvez seja só imaginação. 

Desci do ônibus e pude vê-lo pela janela, ainda distraído com o celular. Queria poder encontrá-lo de novo amanhã, e depois de amanhã, e depois... Até ele finalmente me olhar nos olhos. 

Você também pode gostar de:

0 comentários

Subscribe