O nosso acidente mais bonito.

segunda-feira, agosto 18, 2014


Passei a tarde de ontem sentada na grama da pracinha que tem perto de casa, levei comigo meu caderno de anotações, minha caneta favorita e algumas fotografias que nós tiramos recentemente. Fiquei observando as pessoas aproveitarem o dia de sol, algumas crianças brincando no playground, cachorros fofos correndo pra lá e pra cá, alguns casais conversando baixinho e dando risada; me lembrei do dia que a gente se esbarrou, num acidente cômico no meio dessa mesma praça, lembra? Você estava andando de bicicleta e segurando a coleira do Hulk, o pequeno maltês branco e meigo. Eu, como de costume, estava tomando café, sentada no meu banco favorito embaixo da única cerejeira do bairro, ouvindo músicas antigas que aprendi a gostar quando ainda era pequena, junto com meu pai. De repente vi um cachorro correndo desesperadamente e um cara meio desengonçado, que parecia mal saber andar de bicicleta atrás; o cachorrinho veio correndo e pulando na minha direção, parou na minha frente e ficou tentando subir no meu colo, me lambendo inteira. No meio do susto, fiquei rindo nervosa, mas ao mesmo tempo achando engraçado aquilo tudo. Você, ofegante, veio brigando com o Hulk, mandando ele parar de me assediar, porque eu era uma moça bonita demais pra ele; achei meio piegas, mas espontâneo.

Desde daquela cantada disfarçada, passamos a nos ver todos os dias naquele mesmo lugar. Faz quanto tempo desde aquele primeiro encontro acidental? Dois anos, mais ou menos? Vivemos tanta coisa, mesmo parecendo ser uma vida inteira, sinto como se tivéssemos nos conhecido semana passada, a cada novo dia descobrimos coisas novas sobre nós mesmos. Você foi tomando conta da minha vida, tudo que fazia pensava em fazermos juntos: Eu, você e o Hulk, como uma família. Logo eu, que sempre gostei de morar sozinha, não ter que dividir nada e nem dar satisfações, me vi planejando um futuro com alguém. Já pensei em como nossos filhos brincariam com aquela bolinha de pelos, brava e inquieta, vai dizer que você também não pensou nisso?

No primeiro dia que você foi até meu apartamento, lembro-me da sua cara de assustado ao ver minhas pilhas de livros no quarto, as inúmeras anotações fixadas pela parede e dezenas de folhas com textos que costumo escrever para me distrair. A primeira coisa que você fez foi pegar um deles para ler, mesmo com minhas bochechas vermelhas de vergonha, não costumava mostrá-los a ninguém. Sua reação foi inexpressiva, ficou me encarando durante longos segundos e eu aflita te sacudia rindo, nervosa; até que, com um abraço, você me disse ao pé do ouvindo que eu tinha um dom e deveria mostrá-lo para o mundo inteiro. Sempre exagerado. Seu único pedido foi para que, um dia, eu escrevesse sobre nós, como me sentia. Reescrevi várias vezes, nunca satisfeita com o que lia, achando muito meloso, ou muito rude.

Achava que, se compartilhasse nossa história com mais alguém, ela perderia o encanto e se tornaria algo fútil. Mas hoje, quando escrevi este texto, me lembrei do que me motivou para chegar até aqui: você é quem me inspira a compor minhas histórias.

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