Foi só mais um dia

sexta-feira, agosto 01, 2014


Acordo tarde. Vou ao banheiro, escovo os dentes e prendo meu cabelo em coque mal arrumado, só pra mantê-lo no lugar. Vou até a cozinha e faço um café instantâneo. Coloco na minha xícara favorita, pego o jornal na porta do apartamento e vou até a janela da frente. Fico vendo as crianças brincando na rua, mães com seus bebês aproveitando as ultimas horas de sol antes do meio-dia, quarentões lavando seus carros, em pleno domingo e as vovós solitárias e fofoqueiras sentadas nas portas observando e comentando sobre a vida alheia. Vejo um garoto, de mais ou menos uns 10 anos, caminhando em direção à uma menina. Ele era desajeitado, tinha os shorts sujos, de tanto cair durante o jogo de futebol e ela era delicada e arrumava todas as suas bonecas sentadas ao seu lado, pra assistir ao jogo. O garoto chegou do lado dela e disse alguma coisa que a fez rir; em meio segundo, que olhei para o relógio, os dois já estavam de mãos dadas indo pra a pracinha, na esquina. Eu achei aquilo tão puro e meigo, que não pude deixar de sorrir.

Levantei-me e voltei para o quarto. Peguei uma caixa que mantenho em cima do meu guarda roupas. Dentro dela encontrei bilhetes de quando eu estudava na mesma sala da minha melhor amiga, fotos dos passeios que fazia com a turma da escola e uma carta. Não me lembrava de ter guardado uma carta. Quando a abri, reconheci logo a grafia. Era sua. O papel estava amarelado nas pontas, e a tinta da caneta começava a desbotar, seus desenhos espalhados pela folha ainda me fez sorrir. Quando comecei a ler, me lembrei de como eu era feliz, sem preocupação nenhuma; lembrei-me de como era bom aproveitar a vida ao seu lado. Mas ao mesmo tempo, me lembrei de como nos afastamos, perdemos contato e hoje nem ao menos sei se está vivo, ou se ainda se lembra do meu nome. Comecei a chorar de saudade, de dor. Como dói lembrar do passado. Dói.

Deixei a carta em cima da cama, sequei as lágrimas e fui colocar um short jeans velho. Peguei as chaves do carro e saí sem saber pra onde iria.

Enquanto dirigia, me lembrei do menino e da menina que havia visto hoje cedo, me perguntei se algum dia eles vão se casar, ou se vão se perder, como eu me perdi de você. Perguntei-me se eles vão ser felizes, um ao lado do outro, como um dia eu sonhei em ser, ao seu lado. Mas tudo isso eram suposições, o destino iria fazer seu papel, sendo bom ou não.

Parei em frente a praia, desliguei o carro e fiquei um tempo olhando pra a areia que, naquele momento, estava quase deserta. Os quiosques estavam abrindo um por um, os velhinhos estavam fazendo suas caminhadas matinais e os donos de cachorros fazendo do calçadão um sanitário ao ar livre. Ao mesmo tempo, no horizonte, estava um sol alaranjado, refletindo sua sombra na água infinita do mar. Lembrei-me do dia em que ficamos na praia o dia inteiro, caiu a noite e nós ainda estávamos sentados na areia, a brisa ficava cada vez mais fria, a água avançava na areia e nada disso nos incomodava até que caímos no sono e fomos acordados horas depois por um policial com um cassetete nas mãos. Estávamos tão bêbados e cansados que não entendemos uma palavra sequer, só saímos cambaleado, apoiando um nos ombros do outro e nos sentamos na porta do meu prédio até termos coragem o suficiente de subir três lances de escada.

Meus dias nunca mais foram tão animados, quanto os dias que passei com você. Agora eu estou trancada em um carro popular, na frente da praia, observando a vida alheia e lembrando-me de você à todo momento. Minha vida não é daquelas que os pais ficam orgulhosos, ou que serve de exemplo. Acho triste o caminho que tomei sozinha, trabalhando em um lugar horrível, ganhando pouco, só eu e a minha arte de falar sozinha, de escrever sozinha. Escrever pra ninguém ler.

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