O Estranho.

quarta-feira, fevereiro 26, 2014

Eu havia passado o dia inteiro com a cabeça cheia de coisas por fazer, eram trabalhos da faculdade, compromissos do escritório, fim de semana com os amigos. Saí do trabalho e fui esperar o ônibus no mesmo ponto vazio de sempre -ou pelo menos era o que eu achava-. Quando o ônibus chegou, ele surgiu de trás de uma árvore e entrou logo depois de mim, sentou no banco do meu lado e nem sequer me olhou. Eu estava ocupada demais verificando meus e-mails no celular, até que percebi que ele usava a camiseta de uma das minhas bandas favoritas, achei interessante. Começou a chover e eu deixei a janela entreaberta com alguns pingos chegando até meu rosto e me refrescando um pouco. Percebi que ele dava risadinhas com o canto da boca, devia estar achando engraçado uma menina deixando se molhar pela chuva enquanto o ônibus inteiro se protegia e fechava suas respectivas janelas.
O trajeto era longo e o trânsito fazia o caminho ser ainda mais demorado. Um palhaço entrou para vender balinhas coloridas e "qualquer contribuição é bem-vinda para ajudar a comprar os remédios da minha filha". Eu, com o coração mole, peguei algumas moedas na bolsa e dei em troca das balas. O estranho-simpático ao meu lado ficou olhando para o doce e eu lhe ofereci, ele aceitou e agradeceu com um aceno de cabeça, eu retribui e voltei para a janela.
Quando chegou no meu ponto, pedi licença para passar e ele retrucou dizendo que também ia descer.O caminho até minha casa não tinha muito movimento e eu passava sempre andando muito rápido. Ele estava indo pro lado contrário, mas me chamou com um 'psiu' e perguntou se eu aceitaria que me acompanhasse até a esquina da minha casa. Eu hesitei. Mas se, por acaso, ele fosse um ladrão-psicopata, pelo menos tinha bom gosto musical. Aceitei.
Fomos caminhando como se estivéssemos andando num parque no fim de tarde apreciando a paisagem, sem pressa nenhuma. Ele me contou que tinha acabado de se mudar para São Paulo, vinha de uma cidade pequena do Sul e não conhecia quase ninguém. Estava estudando direito na universidade estadual e estava morando com uma tia ali perto do meu bairro. Eu ouvia atentamente cada palavra dita com um sotaque suave e misturado que chegava a ficar engraçado em algumas palavras. Perguntei por que ele estava me contando tudo aquilo e apenas me respondeu "Porque gostei de você". Fiquei envergonhada e tentei esconder minhas bochechas rosadas com as mãos. Ele riu.
Chegamos na esquina da minha casa e tinha umas crianças brincando na rua. Ele parou na minha frente e ficamos um tempo se dizer nada. Quebrei o silêncio e agradeci pela companhia "Obrigada por ter me trazido, um dia a gente se esbarra de novo". Ele assentiu com a cabeça e acenou meio sem jeito. Foi andando e olhando pra trás de vez quando.
Abri a porta de casa, liguei o computador e coloquei Los Hermanos pra tocar.

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